O número 28 é o caminho de ferro panorâmico mais curto da Europa disfarçado de linha de autocarro: nove quilómetros de via de bitola estreita, assente numa época em que os carros não cabiam nestas ruas — e continuam a não caber —, partilhada hoje por quem anda atrasado para o trabalho, turistas a filmar pelas janelas abertas e um motorista que já ouviu todos os cliques de máquina fotográfica mil vezes. Sobe a espinha da Graça, serpenteia os becos de Alfama com centímetros de folga de cada retrovisor, aplana na Baixa e no Chiado e termina à porta de um cemitério em Campo de Ourique. Toda a gente a bordo vai no mesmo elétrico por uma razão diferente — e é essa a rivalidade de que este artigo trata: não é quem fica com o lugar à janela, mas a quem pertence, afinal, a cidade que se atravessa.
Graça e as Zonas Altas
O 28 começa a subida a sério na Esplanada da Graça (Graça), um terraço amplo e despretensioso junto ao Miradouro da Graça — oficialmente Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen —, onde a linha faz a primeira inversão de marcha. Este é o sítio para perceber todo o percurso antes de o percorrer: peça um café ou uma cerveja (as bebidas custam entre 2 e 5 euros) no quiosque, sente-se numa das cadeiras de plástico e veja os elétricos amarelos a galgar a última rampa e a fazer a curva. É um terraço fácil e informal, que recebe grupos de seis a dez pessoas sem ninguém ficar de pé, o que é mais do que se pode dizer da maioria dos miradouros desta lista.

A dez minutos a pé, rua abaixo, passando por um troço onde a campainha do elétrico toca quase sem parar para afastar os peões da linha, fica o Mosteiro de São Vicente de Fora (Graça), um mosteiro ainda em funcionamento com um terraço no telhado que o deixa mais alto do que qualquer outro ponto do percurso, exceto os próprios miradouros. Tem bilhete pago, de terça a domingo, 8 euros, e a parte mais interessante para grupos é o claustro revestido a azulejos por baixo do telhado — a maior coleção de azulejos barrocos da cidade, dezenas de milhares de azulejos a contar fábulas e cenas de caça em azul e branco. Conte com quarenta minutos se quiser fazer o telhado e o claustro com calma.

Mesmo atrás de São Vicente, a cúpula branca que já se vê do terraço da Graça pertence ao Panteão Nacional (Santa Engrácia) (Alfama), que passou quase três séculos como obra inacabada antes de ser finalmente concluído e transformado em mausoléu nacional. Está fechado às segundas-feiras, custa 4 euros (entrada gratuita no primeiro domingo do mês) e vale a pena subir pelas galerias interiores para a vista sobre o rio e os telhados por onde o elétrico acabou de passar — a maioria das pessoas fotografa a cúpula de um miradouro sem nunca entrar lá dentro, o que é um erro.

Se os horários coincidirem — terças e sábados, da manhã até ao início da tarde —, o espaço entre São Vicente e o Panteão enche-se com a Feira da Ladra (Alfama), o mercado de pulgas ao ar livre de Lisboa: mobília, discos, azulejos antigos retirados de demolições, quinquilharia para turistas, quinquilharia a sério. Só aceita dinheiro vivo, funciona bem para grupos que não se importem de se separar para explorar, e não vale mesmo a pena planear uma visita especial se não estiver lá no dia certo — não deixe que ninguém lhe diga que funciona todos os dias.

As Curvas Apertadas de Alfama
Abaixo do Panteão, o elétrico entra no troço que dá título a este artigo: via única, curvas cegas, retrovisores que se dobram automaticamente porque, se não o fizessem, embateriam nas paredes. A primeira paragem que vale a pena é o Miradouro de Santa Luzia (Alfama), um pequeno terraço público coberto de buganvílias e painéis de azulejo, que é o enquadramento mais fotografado de toda a linha — elétrico, telhados de terracota e rio na mesma imagem, exatamente por isso tem tanta gente em meados da manhã. Vá cedo, antes das nove, ou ao entardecer, quando a luz baixa sobre o Tejo. É gratuito, aguenta grupos com razoabilidade, mas não é lugar para esperar espaço a meio-dia de julho.

A uma curta caminhada em terreno plano dali fica a Sé de Lisboa (Alfama), a catedral de Lisboa, com aparência de fortaleza por fora e oito séculos e meio de idade, tão próxima da via que os elétricos parecem roçar a parede oeste ao passar — é a fotografia que todos os visitantes desta linha tentam obter, catedral e elétrico no mesmo enquadramento. A entrada na igreja é gratuita e recebe grupos sem problema; o claustro, onde as escavações trouxeram à luz restos romanos e mouros sob as lajes, tem bilhete à parte a 5 euros e vale a pena se tiver vinte minutos de sobra.

A poucos passos dali, o Museu do Fado (Alfama) é o museu que explica o que está a ouvir a sair de metade das tascas desta colina depois do anoitecer. O fado — o género musical próprio de Lisboa, melancólico, de uma voz e duas guitarras — nasceu exatamente neste bairro, e o museu (5 euros, 2,50 euros com desconto, áudio-guias em várias línguas, pensado para grupos) é a diferença entre ouvi-lo como ruído de fundo e perceber porque soa como soa. Reserve uma hora.

Para o melhor lugar de onde ver a rivalidade que o elétrico personifica — em vez de fazer parte dela —, suba até ao Chapitô à Mesa (Alfama), um terraço de restaurante mesmo por cima da curva mais íngreme e com mais trânsito de todo o percurso, mesmo abaixo do Castelo. Recomenda-se reserva para as mesas do terraço, é uma refeição sentada de gama média-alta em vez de uma paragem rápida, e lá de cima pode ver um único elétrico a bloquear o trânsito durante um quarteirão inteiro enquanto toda a gente lá em baixo se debruça para o filmar. É o item mais caro desta lista e o que melhor explica o título.

Baixa: Onde a Subida Termina
O elétrico aplana e acelera pela Baixa, a grelha reconstruída após o terramoto de 1755, e a paragem óbvia aqui é a Confeitaria Nacional (Baixa), a mais antiga pastelaria da cidade, aberta desde 1829 — mais velha do que a própria linha do elétrico. Há balcão de pé para um pastel de nata rápido e café (1,50 a 3 euros por doce) ou serviço de café sentado a sério se quiser descansar as pernas depois da subida; de qualquer forma, recebe grupos sem complicações e é melhor escolha do que as pastelarias turísticas genéricas à volta.

A dois minutos da linha, atravessando o Rossio, fica A Ginjinha (Baixa/Largo de São Domingos), um bar de licores tão pequeno que não tem lugares sentados — toda a gente bebe a dose de ginjinha (1,80 a 2,20 euros, com ou sem cereja no copo) de pé no passeio. Funciona bem para um grupo desde que ninguém se importe de esperar num balcão de buraco na parede, e é o desvio a que todas as anedotas sobre o engarrafamento do 28 acabam por chegar, porque a rua onde fica é uma daquelas por onde o elétrico tem de abrir caminho para chegar ao Rossio.

Chiado, Brevemente
O 28 contorna o Chiado em vez de atravessar o seu centro, mas vale a pena o desvio de cinco minutos a subir para Manteigaria — Chiado (Chiado), uma pastelaria de balcão que faz o outro bom pastel de nata desta cidade — Belém fica com os autocarros de turistas, esta fica com os locais e com quem já percebeu que a fila é mais curta. Os pastéis custam cerca de 1,50 euros, há rotação rápida em vez de lugares sentados, e é uma paragem fácil para um grupo que não precise de se sentar.

Estrela: A Extremidade Sossegada
Onde a Graça e Alfama são multidões e pedra de catedral, a Estrela — o extremo oeste da linha — é mais calma, mais residencial, e a igreja com cúpula aqui recebe uma fração dos visitantes do Panteão apesar de ser igualmente visitável. A Basílica da Estrela (Estrela) tem entrada gratuita, e a subida à cúpula — uma das únicas gratuitas da cidade — está aberta ao público, o que a maioria dos visitantes simplesmente não sabe. A escada é estreita e de sentido único, por isso adapta-se melhor a casais e pequenos pares do que a um grupo de oito a circular junto; se viajar em grupo, dividam-se.

Para a versão sentada e sem pressa do ritual da ginjinha, o Solar do Vinho do Porto (São Bento/Estrela) serve vinho do Porto ao copo com serviço de mesa a valer, sem necessidade de reserva para grupos pequenos, numa sala revestida a madeira que parece um clube privado em vez de um bar. É uma opção mais cara do que a dose de 2 euros, mas é a versão de “um copo rápido em Lisboa” que o deixa mesmo sentar-se e conversar, o que nenhum sítio na Baixa oferece.

Campo de Ourique e o Portão do Cemitério
O último troço do elétrico atravessa Campo de Ourique, um bairro plano e de grelha que parece uma cidade diferente depois das colinas — passeios largos, lojas locais, nada da logística de gestão de multidões de Alfama. O Mercado de Campo de Ourique (Campo de Ourique) é o mercado de comida para onde mandar a malta depois de acabar o percurso: lugares sentados comunitários, uma dúzia de bancas que vão do marisco aos hambúrgueres e ao vinho natural, e recebe grupos facilmente porque ninguém está a tentar agarrar uma única mesa. É o sítio natural para comer depois de o elétrico fazer o seu trabalho.

E então a linha simplesmente para. O Cemitério dos Prazeres (Campo de Ourique) é o terminal real do 28 — não um miradouro, não uma igreja, mas um portão de cemitério, mausoléus e ciprestes onde os ossos amarelos do elétrico ficam sem trilho. É um espaço público aberto, gratuito, silencioso o suficiente para que os grupos mantenham as vozes baixas por cortesia básica às pessoas que visitam os túmulos, mas vale a pena caminhar até o fim em vez de saltar na Estrela ou no próprio Campo de Ourique — a imagem final é exatamente tão boa quanto o título promete, e pulá-la significa nunca realmente terminar o passeio que você começou na Graça.

Como Andar Corretamente
Transporte: Compre um cartão Viva Viagem (€0,50, reembolsável) e carregue-o com viagens individuais (€1,85 com o cartão vs €3 em dinheiro a bordo) ou com um passe de 24 horas (€6,60) se você planeja mais de três viagens naquele dia — você vai querer mais de três viagens. O 28 funciona aproximadamente das 6h às 23h; evite das 10h às 13h e novamente das 15h às 17h se você quiser um assento em vez de um lugar em pé espremido contra a porta.
Dinheiro: Leve notas pequenas e moedas. O A Ginjinha e a Feira da Ladra são só em dinheiro, e vários quiosques ao longo dos miradouros não aceitam cartões de forma confiável.
Horários: Ande no trecho completo de Prazeres a Martim Moniz uma vez, cedo — antes das 9h — apenas pelo passeio, sem paradas. Depois faça o inverso, visitando os locais acima no seu ritmo ao longo de um dia inteiro, pegando o elétrico apenas para os trechos de subida. A Feira da Ladra só existe às terças e sábados, então planeje seu dia em torno dela se o mercado de pulgas for importante para você.
Orçamento: Um dia inteiro cobrindo todos os locais acima — transporte, duas entradas de museu ou monumento, duas paradas para café, uma refeição sentada no Chapitô ou no mercado, uma ginjinha e um pastel de nata — custa aproximadamente €40–60 por pessoa, antes do que você gastar na Feira da Ladra.
Onde ficar: Graça ou Alfama coloca você no início da linha e significa que cada descida de elétrico é um passeio turístico gratuito; Campo de Ourique é mais tranquilo e barato, mas significa começar o dia contra a multidão. De qualquer forma, comece com uma pesquisa de hotéis em Lisboa, e se você quiser o resto da cidade além desta linha de elétrico, o guia de Lisboa cobre tudo.






